Entrevista com o Dr. Luiz Ernani Maddalozzo

 

Quando você se interessou pela neurocirurgia?
Poderia dizer que foi amor a primeira vista. Estava iniciando o segundo ano do curso de medicina, fui levado ao centro cirúrgico pelo Dr. Hamilton Leal, diretor proprietário do Hospital Santa Cruz. Pela manha assisti uma cirurgia de colicistectomia (vesícula) realizada pelo Dr. Affonso Ennes.
À tarde o neurocirurgião José Faria Ratton realizou uma craniotomia para tumor em um adolescente. Muito educadamente, como havia sido orientado pelo Dr. Hamilton, pedi licença para assistir a cirurgia e fiz algumas perguntas no transcorrer das oito horas de cirurgia, das 14 às 22 horas.
No dia seguinte, logo cedo, o Dr. Ratton me estendeu um cartão de visita e pediu que eu fosse ao seu consultório naquela tarde. Eu imaginei que alguma coisa de errada pudesse ter acontecido, mas não deixei de ir.
Lembro bem da sensação, parecia que o Ratton tinha 30 metros de altura, quem o conheceu sabe que ele de baixa estatura. Era professor da UFPR e ligado ao espiritismo. Disse-me: “Eu gostei muito do teu jeito, você não que ser neurocirurgião?”
Respondi mais que depressa: “quero sim”. Na realidade não tinha muita idéia do que isto significava, mas nunca me arrependi de ter aceitado.

E aí como foi administrar o curso de medicina e a atividade neurocirúrgica?
Quando saía da escola, ia para a neurocirurgia. Trabalhei do segundo até o sexto ano da faculdade, e adquiri uma enorme experiência. Naquele tempo era frequente os estudantes
que acompanhavam serviços realizarem  cirurgias, atuando como cirurgião. Deste modo mesmo sendo ainda estudante, realizei 120 cirurgias atuando como cirurgião, sem contar o sem numero de cirurgias que auxiliei.

E com todo este treinamento por que decidiu ainda fazer residência em neurocirurgia?
Eu estava para terminar o curso de medicina e fui passar um mês no pavilhão São Jose da Santa Casa de Porto Alegre, para aprender um procedimento neuro-radiológico que não se fazia em Curitiba. Observei que os residentes, em fase final de treinamento, tinham muito menos experiência que eu, apenas estudante de medicina, mas que tinham muito mais conhecimento teórico. Não tive duvida que em pouco tempo estaria superado. Em vez de um mês fiquei um dia em Porto Alegre e parti para Montevidéu. Realizei uma entrevista e fui aceito para fazer residência em neurocirurgia. 

Quando voltei e informei ao meu chefe já fiquei imediatamente desempregado (risos). Porem não tinha duvida que este era o melhor caminho para completar minha formação. Seria lastimável não lapidar toda a experiência adquirida com uma residência em neurocirurgia.

 

E por que a opção por Montevidéu?
Na época o Uruguai era considerado a Suíça da América. Um país muito rico e muito culto. O Instituto de Neurologia de Montevidéu tinha enorme tradição mundial e o Instituto de Neurologia só não era mais antigo que o Instituto de Nova York.

E na residência neurocirúrgica a experiência prévia foi de valia?
Foi muito importante. Tenho muito orgulho de ter sido o residente que mais cirurgias realizou na história do Instituto de Neurologia. Fui o último becário do Prof. Arana, um dos pioneiros da neurocirurgia mundial.

Que outros estágios você considera que também foram importantes?
De todos, dois em particular. Nos anos 80 a cirurgia dos tumores da pineal e dos tumores intra­-medulares constituíam um desafio para a quase a totalidade dos neurocirurgiões, entre os quais também me incluía. O Dr. Benett Stein na Universidade de Columbia em Nova York era a autoridade mundial neste campo. Pude passar um tempo acompanhando este serviço o que foi de grande valia no meu aprendizado.
O outro foi no Canadá, em London Ontário. Serviço do Prof. Charles Drake, cujo forte eram os aneurismas cerebrais. Pacientes de todo mundo. Havia um mapa mundi com marcadores nos países de origem dos pacientes que lá estavam internados naquele dia para tratamento Para se ter uma ideia da importancia daquele serviço, existe um tipo de aneurisma cerebral, pouco frequente, do topo da artéria basilar, que um neurocirurgiao atuante trata uns 50 casos durante toda sua vida. Pois bem, quando lá cheguei eles estavam sendo homenageados pelo miléssimo caso operado.

De todas as cirurgias que já realizou quais as que mais lhe marcaram?
Cada cirurgia por mais simples que pareça é encarada como única. Nada pode ser improvisado ou minimizado. Mas eu poderia relacionar três que foram muito significativas para mim. A primeira quando era ainda estudante de medicina. Meus pais residiam em Caçador, interior de Santa Catarina. Quando os visitava não perdia a oportunidade de freqüentar o hospital local. Numa destas ocasiões fui chamado pelo diretor do hospital Jonas Ramos para ver um paciente jovem, que sofreu uma queda com trauma leve de crânio e que após algumas horas estava em coma, já desenvolvendo sinais graves, em poucas horas iria para estado de coma irreversível. Existia um traço de fratura no osso temporal, era um caso típico de um hematoma extra-dural. Chovia há vários dias e a cidade estava ilhada pela condição intransitável de 60 km de estrada sem pavimentação até a BR 116.

 

Não existia neurocirurgião na cidade, o médico diretor me disse: a única solução é você mesmo operá-lo. Operei com os poucos recursos que dispunha no local e o paciente recuperou-se plenamente. Não tenho duvida que a maioria concordaria se eu, um estudante, me recusasse a operá-lo. Porém tenho certeza que eu nunca me perdoaria, seria muito difícil carregar esta culpa. Esta decisão certamente contribuiu muito para a minha formação.
Outro caso marcante foi o da paciente que apresentava uma mal formação arterio-venosa cerebral que ocupava quase todo um hemisfério cerebral. Considerada inoperável, foi submetida a várias embolizações e radio-cirurgia, sem nenhum efeito.Num último esforço a levamos à cirurgia. Permaneci operando por 19 horas, sem intervalo. Consegui remover toda lesão e a paciente ficou sem sequelas, curada. Foi muito gratificante. A terceira que me marcou foi quando meu sogro teve diagnosticado um tumor cerebral, benigno, porém, imenso. Eu iria naturalmente encaminha-lo para um colega meu. E ele não concordou, queria que eu o operasse. Isto foi marcante, reuni a família, mostrei em livro todos os riscos, e programei a cirurgia.  Eu estava confiante, mas na manha da cirurgia, quando estava saindo, um dos meus filhos, que na época tinha 6 anos , me disse: papai você é o maior médico do mundo , vai operar o vovô e ele vai ficar bom. A cirurgia era de alto risco, todos os adultos sabiam que havia possibilidade de complicações. Caso o avô não sobrevivesse meu filho não iria entender.
Naquele momento fiquei muito preocupado com esta possibilidade. Felizmente o resultado foi bom e pude continuar como sendo o melhor médico do mundo para o meu filho criança.

Quando se fala em neuro, se pensa somente na cabeça, mas o neurocirurgião também é um especialista na cirurgia da coluna?
Realmente muitas pessoas não conhecem este aspecto da neurocirurgia. No mundo todo 60% da atividade do neurocirurgião é com a coluna e uns 40% com as cirurgias cranianas.

Imagino que o médico tem que estar muito preparado para tomar estas decisões?
É necessário se manter atualizado por meio de cursos de educação continuada, da leitura diária das publicações científicas e aliar tudo isto à experiência adquirida no atendimento dos pacientes ao longo dos anos.

E nesta linha de aprendizado quando você optou por se dedicar ao ensino?
Estou ligado a UFPR desde meu que retornei da residência médica. Estar na universidade com os alunos e com os residentes de neurocirurgia é muito estimulante. Não trabalhamos com residentes na nossa clínica privada, ali somos todos neurocirurgiões titulados.

E para encerar, os pacientes e as famílias se dão conta da proximidade da relação médico paciente?
Eu acredito que na maioria das vezes sim. Mesmo em situações muito graves  nos sentimos recompensados quando ocorrem  manifestações como por exemplo esta que recebemos.

Carta de familiar de paciente operado por Luiz Hernani.
“Durante seis meses, o senhor esteve presente em nossa casa, em nosso pensamento e em nossa vida. Agora neste momento em que a dor toma conta de nossos corações, às vezes parece que o esquecemos. Mas isto não significa que tudo acabou e que não esqueceremos sua atenção como médico nos momentos de dúvida, angústia, ou desespero pelos quais passávamos. Nestas horas, nem pensávamos se o senhor estava trabalhando ou aproveitando seus momentos de folga com sua família. Só queríamos uma palavra, de conforto, uma atitude de confiança, para dar um pouco mais de alívio à pessoa que amávamos e estava sofrendo. Desejamos de coração agradecer toda sua dedicação para conosco neste momento tão difícil. Deus o quis (nome do paciente) consigo, e para nós restou a saudade. Para o senhor pode ter sido mais um paciente, mas tenha certeza que jamais esqueceremos sua atenção”. 10/05/2005.

Este tipo de carta é muito frequente recebermos, revela o neurocirurgião.

Clínica Maddalozzo - Todos os direitos reservados. - Desenvolvido por www.achare.com